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18 de Agosto de 2017

Por uma vida autêntica

Evandro Martins, Advogado
Publicado por Evandro Martins
há 4 anos

Abusou-se da palavra, por isso ela caiu em descrédito. Abusou-se da confiança, por isso tornamo-nos desacreditados. A manipulação, o engano, a fé, o poder, a propaganda, a mentira, enfim, todos os artifícios criados pela mente humana e que agem sobre ela mesma, atuam em rede: transitam pelos indivíduos. Quer dizer que eu, uma vez enganado, passo a crer no engano, absorvo a ideia e, por isso, torno-me enganador de outras pessoas, e assim por diante. É isto que fez com que várias campanhas odiosas tomassem corpo: manipulados tornaram-se manipuladores e o ódio se alastrou, promoveu o caos, fez a guerra.

O holocausto (a morte de seis milhões de judeus) só foi possível por conta do ódio que os nazistas incutiram em seu povo por meio de uma pesada e bem articulada propaganda difamatória. O povo alemão queria se ver livre dos judeus como se isto fosse salvá-los dos verdadeiros inimigos da sua felicidade. Toda cúpula nazista e o próprio povo absorveram de tal maneira o ódio, que era como se a vida não fosse mais possível com judeus no mundo. E foi querendo estabelecer uma verdade – a da raça pura – que o nazismo se enganou e enganou seu povo.

E a recente divisão presente no imaginário das pessoas entre cidadãos de bem versus marginais? Não será fruto de uma das campanhas difamatórias mais bem propagandeadas dos últimos tempos? Toda a grande mídia se debruça e se esforça em acusar os marginais, em dizer que eles são os responsáveis pelas mazelas da sociedade, que são os culpados por toda desgraça, ditando o que as pessoas devem sentir, pensar e agir. “Os marginais são bandidos, perigosos, maus”, assim os caluniam. “Eles nos infundem pavor, eles atacam nossos bens mais valiosos: a vida e o patrimônio”, assim é dito. Assim somos enganados. Como se a vida deles valesse alguma coisa. Como se a fúria com que se lançam não fosse apenas o reflexo do nosso ódio, do nosso preconceito, do nosso nojo. Como se o nosso patrimônio que tanto defendemos e ostentamos não provocasse um total desajuste de ordem psicológica naqueles que nada têm. Há que se ter em mente isto: aquilo que acreditamos serem as piores coisas deste mundo são apenas as coisas mais bem caluniadas, as mais carregadas de ódio, as mais nojentas.

Retomando o raciocínio de início, um nome ficou gravado na história sobre a ‘”arte de manipular”: Edward Bernays, sobrinho de Freud. Baseado nas ideias de seu tio sobre o inconsciente, Bernays achava que o povo era uma massa irracional, guiada unicamente pelos instintos, portanto perigosa e que por isso precisava ser controlado, a fim de que se tornasse dócil e não se revoltasse. Já nas primeiras décadas no século XX percebeu-se que chegaria um tempo em que as pessoas teriam disponíveis todos os bens de que precisavam e não teria mais consumo. Bernays foi responsável com que os bens fossem queridos pelo simples desejo de querê-los e não por necessidade[1].

Ele mostrou às corporações americanas como era possível fazer com que as pessoas quisessem bens que não precisavam. Fez isto associando os bens de consumo aos desejos inconscientes (ocultos) das pessoas. Ele foi responsável para que o carro fosse visto como um símbolo da sexualidade masculina, manipulando o desejo de todo homem em ser viril, “poderoso”. Fez com que a roupa fosse considerada como a expressão da própria personalidade. Assim, as pessoas passaram a ter que se vestir de forma diferente, pois se cada ser é único, as roupas usadas não podem ser as mesmas. Relacionou o cigarro com o desejo de liberdade, independência, poder, como se o ato de fumar permitisse tais sensações. Fez com que a entrada dos EUA na Primeira Guerra fosse vista como o meio de se levar a democracia à Europa, manobra que os EUA sempre utilizaram em suas declarações de guerra (por exemplo no Iraque). Fez com que o capitalismo e democracia fossem vistos como coisas inseparáveis, o que até hoje se tem como verdade.

Tudo isto, ou seja, estabelecer uma conexão entre um carro e a virilidade, entre o cigarro e a independência, entre a roupa e a personalidade, entre a guerra e a democracia, entre a democracia e o capitalismo é totalmente irracional, mas até hoje tais “verdades” estão presentes no “pensamento” das pessoas. A manipulação do inconsciente pode ser utilizada para finalidades terríveis, como de fato houve: Joseph Goebbels, ministro da propaganda do governo nazista se valeu das ideias de Bernays para manipular o povo alemão.

E o fato é que todas estas ideias são utilizadas descaradamente por institutos de pesquisa, órgãos governamentais, agências de inteligência, campanhas publicitárias, pesquisas tendenciosas, megacorporações econômicas, pela grande mídia, tudo a fim de controlar a “opinião pública”, de criar mentalidades, fabricar gostos, fazer estilo, lançar moda e atrapalhar a existência de uma vida autêntica. Até hoje os mais íntimos sentimentos e desejos de cada um são provocados sem qualquer interesse nas reais necessidades da vida.

E foi por meio destas ideias, por meio das técnicas de persuasão, mensagens subliminares, jargões de efeito, discursos morais, discursos inflamados, grande carisma, capacidade de manipulação, apelo à tradição, ao passado, à “moral”, à religião e toda a teia de relações humanas interconectando esta “arte de ser falso” é que ao longo da história foi possível estabelecer “mandamentos” que estiveram acima da própria vida. Por conta desses falsos mandamentos é que se ditou o comportamento do ser humano, seu gosto, seu modo de pensar, seu estilo de vida, seu inimigo; criaram-se formas de governo, poderes, privilégios, desigualdade. Por conta disso é que hoje a vida se burocratizou, se emaranhou, se complicou.

Com a Revolução Industrial a sociedade precisava de trabalhadores que fossem de um lugar para outro. Assim, a educação foi entregue às escolas e o cuidado dos idosos aos asilos. O feminismo só foi possível por conta da quebra da rotina na vida familiar que o industrialismo provocou: as mulheres queriam participar daquela ‘correria’ do “progresso” que os homens estavam sujeitos. Com isto o próprio casamento, de forma inconsciente, perdeu sua razão de ser: antes o casamento era uma instituição. Tinha um centro gravitacional: o homem que provia o lar. A sociedade era patriarcal. Ao se estabelecer o casamento por amor, virou um negócio pior do que o antigo. Pior porque agora o amor era medido conforme o regime de bens. Com a revolução industrial os horizontes foram expandidos: os novos veículos de comunicação aumentaram a quantidade de informação e atrativos de terras distantes. Os filósofos, movidos pelo espírito da época, falaram acerca da propriedade, do Estado, do homem e sua essência (Hobbes, Locke, Rousseau, Schopenhauer, Nietzsche, etc). Os poetas exaltaram o espírito nacional. Compositores compunham hinos à nacionalidade. Em cada canto, levantes nacionalistas se iniciaram. Era como se cada espaço de terra estivesse se apressando em proclamar o seu direito de existir antes mesmo de possuírem condições para tanto. Tudo para serem reconhecidos como nações pelo novo sistema. A verdade é que tudo tinha mudado. O trabalho das fábricas exigiu isto. O tempo foi sincronizado e crianças precisavam, desde cedo, aprender a ver as horas. Tudo deveria ser maximizado (obras, fábricas, território), pois dava a ideia de grandeza. O homem precisava se concentrar no que fazia e se especializar naquilo. As coisas foram padronizadas, já que tudo era produzido em larga escala. Começou a nascer concomitante a isto a máquina do Estado e todos seus tentáculos, incluindo aí uma espécie de ser imortal: a companhia de responsabilidade limitada, a qual podia subsistir sem os investidores originais. Foram criadas Constituições a rodo. Foi uma época de separação e concentração de tudo. Cada qual no seu lugar: escolas, hospitais, manicômios, prisões, asilos, igrejas, sindicatos, indústrias, etc. A “integração” de tudo isto ficou a cargo de uma parcela de gente pouco seleta: políticos, banqueiros, empresários, burocratas, demagogos. Eles têm sido os grandes estranguladores da civilização que está por vir.

O fato é que quando se vive dentro de um sistema (capitalista) as pessoas passam a “pensar”, de acordo com o mesmo, porque há todo um aparato lançado aos quatro cantos com “ares de verdade” que reforça a existência deste sistema. Com isto consegue-se abstrair a “opinião” das pessoas, a ponto de “pensarem” e “agirem” conforme os outros, conforme a maioria, conforme “deve ser”. As pessoas já perderam o dom de raciocinar. Nossos “gostos”, nossa “vontade”, nossos “desejos”, nosso “pensamento” não são nossos. Mesmo assim as pessoas insistem em afirmar que o fato de gostar disto e não daquilo, o fato de desejar isto e não aquilo exprime a sua “liberdade”.

Por exemplo, a higiene pessoal é coisa recente. Napoleão Bonaparte comunicava à sua esposa (por carta) que em breve estaria chegando e pedia para que ela não se lavasse. Este era um “gosto” seu: apreciava o cheiro natural de sua esposa. Hoje isto seria considerado um gosto bizarro. Mas todo este cuidado com a higiene pessoal surgiu por conta da indústria da perfumaria que queria ganhar terreno e vender. Tomar banho diariamente é um hábito extremamente recente. A beleza também se modificou: não faz muito tempo o que se tinha por belo hoje não é mais. O trabalho, por sua vez, sempre foi uma vergonha. Com a Revolução Industrial onde aquela leva de camponeses passou a viver na cidade propagandearam que trabalhar era uma virtude. Mas sempre mantiveram – e no início da Revolução Industrial era pior – uma jornada longa e cansativa, com este nítido propósito: evitar que as massas proletárias se raciocinassem ou mesmo se dedicassem às atividades criminosas. Há quem diga que goste do seu trabalho, mas em regra esse “gostar” não se refere à atividade em si, mas sim ao circulo social, às relações humanas que com o trabalho vêm. Geralmente a atividade em si é das mais insignificantes, existe somente para manter uma estrutura falida. As pessoas não se dão conta, mas a maioria das profissões não deveria existir (juízes, promotores, advogados, publicitários, seguranças, vendedores, caixas, atendentes de telemarketing, paparazzos, porteiros, repórteres, etc). Ainda: no tempo de nossos avós os remédios eram colhidos da natureza e raramente se chamava um médico. Hoje há uma drogaria a cada esquina. Pessoas reivindicam mais hospitais como sinal de saúde, quando na verdade reflete o quão doente está nossa sociedade. Não faz muito tempo os produtos de limpeza eram água e sabão. Hoje há uma infinidade de produtos sem os quais a limpeza parece ser impossível.

E mais: no passado era dado ao homem ser infiel. Quanto maior o número de amantes, mais viril e “macho” era o homem. Com o movimento feminista onde as mulheres se nivelaram aos homens, não terão elas alcançado o direito a também ter amantes? Não será o ciúme uma coisa tola com tantos métodos contraceptivos? Com tantas formas de se garantir que o patrimônio (a herança) fique entre “família”? Pois bem, houve época em que o sofrimento[2] era uma virtude, a crueldade uma virtude, a vingança uma virtude, a negação da razão uma virtude, em que, pelo contrário, o bem estar era um perigo, a sede de saber um perigo, a paz um perigo, a compaixão um perigo, o trabalho uma vergonha, a loucura algo de divino, a mudança um perigo. E pensar que tudo isso se modificou e, por isto, somos melhores, mais civilizados?

Com relação ao “inimigo” não é diferente. O Brasil já se inimizou com o índio que, por ser fera devia ser caçado, passou por revoltosos, quilombolas, inconfidentes, cangaceiros e sertanejos, até o “marginal”, aquele que, etimologicamente falando, está à margem de tudo. E o processo é sempre o mesmo, consiste em classificá-los como entes perigosos ou daninhos para apresentá-los como inimigos da sociedade.

As pessoas pensam ser livres, mas não são. Elas acreditam ter vontade, mas não possuem. Elas se sentem culpadas, mas não são. Elas dizem palavras de ordem “o caminho é a educação”, “tem que por pra trabalhar”, “tem que ir pra cadeia”, “esse é bandido”, “isto é crime”, “aquilo é belo”. São joguetes reproduzindo um discurso barato. A isso chamam “opinião”. Tudo aquilo que creem é uma farsa. Tudo o que “pensam” advém de uma ideia pré-concebida. Tudo o que “decidem” é obra das circunstâncias e não deste truque ordinário chamado “livre arbítrio”. E ao lento suicídio de cada um, de todos nós, dizem “é a vida”.

Talvez por isto que Bernays considerava o povo uma massa irracional. Porque as pessoas agem de forma irracional, manipulada, inconsciente, instintivamente. Elas realizam atos que não encontram explicação racional, como a ação de comprar produtos sem precisar, odiar um ser da mesma espécie, promover uma guerra, idolatrar alguém, ser fanático por um clube ou seita, crer na virtude do trabalho, acreditar na educação, defender “a moralidade”, “os bons costumes”, ou ainda, o fato de se casar.

Um estudo feito por cientistas americanos aponta que o comportamento humano pode ser afetado por episódios vivenciados por gerações passadas por meio de uma espécie de memória genética que pode ser transmitida entre as gerações[3]. Enfim, um trauma sofrido pelo meu pai pode ser transmitido a mim sem que eu tenha vivido este trauma. E bem se sabe que um trauma profundo sofrido na infância é capaz de produzir um comportamento agressivo, violento e antissocial no futuro.

É por isto que um estresse sofrido pela gestante terá efeitos sobre o futuro ser, na forma de vícios (que todos dizem ser devido “a genética”). É por isto que se a mulher passar por fome durante a gravidez[4], o filho será mesquinho com açucares e doces e vice-versa. É por isto que a população da África tornou-se negra: ali onde a incidência solar é maior, os indivíduos foram passando aos descendentes a cor mais escura, não através da genética, mas pela experiência de vida, como uma espécie de “sabedoria” a fim de que as gerações futuras pudessem se adaptar melhor às condições climáticas. É por isso que os habitantes dos países nórdicos são brancos. É por isso que existem todas estas “raças humanas”. É por isso que hoje existem os animais domésticos: já que todos eles descenderam de animais selvagens, como demonstrou Darwin, foi por meio da memória do que viveram é que transmitiram sua experiência de vida, sua “domesticação”. É por isso que existe toda esta diversidade biológica: foi pela influência do meio agindo sobre a mais primitiva espécie, e esta transmitindo seus caracteres, sua experiência de vida à futura vida, é que novas vidas, novas espécies se formaram. É isto o que se pode chamar “dança da vida”.

Mas nesta dança, o ser humano criou uma espécie de marcha fúnebre: ele está sendo responsável por criar subculturas da cultura, subespécies da espécie humana: pessoas servis, domesticadas, atrasadas, alguns vivendo na mais absoluta miséria, no mais completo analfabetismo, se escolarizando nos guetos, se diplomando nas prisões, sofrendo toda sorte de privações, abusos, traumas.

O ser humano é formado por um acúmulo de circunstâncias - passadas e presentes. Estas circunstâncias é que vão ditar o que ele vai pensar, desejar e agir. Por exemplo: os meus antepassados e as experiências que eles tiveram vão influir no meu ser por meio de uma memória genética; os meus pais (ou a ausência deles) e o que eles viveram também; o desenrolar de minha gestação idem. E mais: o fato do meu cérebro ser constituído desta forma e não de outra; o fato de eu ter esta compleição física e não outra; a minha alimentação (ou a falta dela); o sistema vigente; o “espírito” da época; os livros que eu li e os que eu não li; os filmes que assisti e os que não assisti; o acaso de eu ser rico, isto é: o fato de eu frequentar as salas catedráticas, os salões de festa, os restaurantes e bares refinados, tendo a espera o lar aconchegante, ou ser pobre: ter uma má alimentação, os piores vícios, adoecer e esperar em vão alguma assistência do Estado, ser cotidianamente abordado pela policia truculenta, ter a casa invadida sem mandado judicial, ver um amigo morto numa "troca de tiro" quando na verdade foi brutalmente assassinado pela policia, sofrer discriminação, em resumo, é a minha experiência de vida e as circunstâncias que eu vou me defrontar e como eu assimilo tudo isto é que farão de mim o que eu sou.

E estas circunstâncias ditam praticamente tudo em nossas vidas. Por exemplo: o fato de eu “cutucar” o meu nariz é porque alguma impureza ali se instalou; e se instalou, foi por causa de alguma circunstância. O fato de eu chegar numa loja disposto a comprar determinado automóvel não é a minha “vontade” quem fala. Primeiro este carro tem que existir. E se existe é por alguma circunstância. Se estou “decidido” a comprar este carro é porque estou movido por alguma propaganda, alguma revista ou por algum amigo. E se o vendedor da loja me convence a comprar outro carro? Aí aquela minha vontade vai para os ares. E mesmo o fato do vendedor ter conseguido me vender o carro isto não quer dizer que a “vontade” dele tenha prevalecido sobre a minha, mas sim porque a empresa precisa atingir metas. E até mesmo esta “vontade” da empresa não é dela. É porque se não vender ela sucumbe diante do implacável mercado. Ainda, o fato de eu pretender viajar para a Itália. Inúmeras circunstâncias podem ocorrer. Posso receber o convite de alguém, ou ser persuadido por uma pessoa. Posso ter parentes lá. Posso achar o preço da passagem atrativo. Pode ser que algum antepassado meu tenha vivido naquelas terras e numa espécie de atavismo[5] eu “queira” conhecê-las. Ou pode ser que esteja presente em mim o traço daqueles antigos navegantes e exploradores e por isso “queira” saciar a sede de conhecer novos lugares. Até mesmo as grandes ideias, os grandes inventos, os grandes pensadores são fruto de uma série de circunstâncias, como o fato de terem se apoiado no ombro de gigantes.

Da mesma forma, as circunstâncias agem sobre o “marginal”, o “bandido”, o “criminoso”. A propaganda que faz com que eu queira tal carro pode ser a mesma que impulsiona o “marginal” a também querê-lo (é comum jovens cometerem assaltos a veículo apenas para “dar umas voltas”, a fim de conseguir garotas, o que prova que as ideias de Bernays continuam vivas).

Há uma crença do senso comum de que tudo se deve à genética. Para desmascarar esta falsa ideia, cito o caso do neurocientista James Fallon[6] que passou anos investigando o cérebro de potenciais assassinos até que se deparou com o próprio cérebro e descobriu ser um psicopata, com predisposição para agressão, violência e a baixa empatia. Mas como ele teve uma infância “encantada” e nunca sofreu nenhuma espécie de abuso tais genes foram “inutilizados” devido ao meio em que viveu, o que indica que o meio sobrepõe-se à genética.

Rousseau considerava o homem naturalmente bom, mas que a sociedade o corrompe. Hobbes sentenciou que o “homem é o lobo do homem”. Freud morreu desiludido com o homem: considerava-o um animal feroz, sádico, ruim. Ao testemunhar a revolução russa, a Primeira Guerra, a ascensão do nazismo e o início da Segunda Guerra julgou que o homem era incapaz de evoluir e que a maldade humana não tinha limites.

Mas a verdade é que não existe uma natureza "humana", ou uma predisposição inata ao egoísmo, à ganância, ao bem ou ao mau. O que existem são necessidades humanas. Necessidade de alimento e nutritivo (para que possa sobreviver e também desenvolva de forma perfeita o corpo e o cérebro); necessidade de abrigo (para se proteger das intempéries, do frio, do calor); necessidade de vestuário (para se aquecer); e necessidade de ser amado, porque o homem, assim como os macacos, são seres sociais. Quer dizer que o homem não só existe como coexiste. E coexistir consiste em ser aceito, querido, amado pelos demais seres. Essa necessidade é tão necessária quanto às demais. Sem ela instala-se um total desajuste na sociedade. Assim é que boa parte das pessoas, de forma inconsciente e compulsivamente, querem alcançar poder, acumular riqueza, obter títulos, ganhar prêmios, ter uma carreira de sucesso. Alguns veneram o dinheiro, cultuam o corpo, o sexo e outros recorrem à violência, pois acreditam ser a única forma de serem reconhecidas, queridas, aceitas. Ocorre que todas estas ações são necessidades aparentes, porque não se busca o que é melhor para si, mas se quer alcançar as pretensões que os outros fazem de si, tudo para ser bajulado, idolatrado, reverenciado. Um mero deslumbramento do que os outros fazem de si.

É preciso compreender que estamos numa grande teia, estamos todos interligados por uma rede de circunstâncias. Deste modo não somos livres e não decidimos nada. Assim, a “culpa” se encontra dispersa nas circunstâncias, jamais no “culpado”. Para punir eficazmente um determinado fato ocorrido teria que se punir todas as circunstâncias formadoras do ser, inclusive um trauma do avô, um abuso na infância, a má alimentação, a pobreza, a desgraça, o desespero. Deste modo, os embates psíquicos e as crises que, por diversos motivos (circunstâncias), jogam o ser humano de um lado para o outro até que ele decida agir, jamais formarão o seu “livre arbítrio”, serão apenas a incidência das circunstâncias determinantes. Por isto, é inútil querer punir o “culpado”, se não modificarmos as circunstâncias (o que inclui o próprio sistema) que formam o ser, o “culpado”.

O comportamento é determinado pelas informações que o ser humano assimila. As informações são fornecidas pela experiência de vida. E se esta vida for como a nossa: cheia de ódio, preconceito, intolerância, dissimulação, engano, enfim, um querendo passar por cima do outro, a vida será violenta e tudo estará perdido. O “crime” é uma manifestação, uma expressão da vida, um reflexo dela. O “culpado” é apenas uma das personificações desta vida. Basta dizer que ao longo da história é comum mocinhos virarem bandidos e bandidos virarem heróis, o que prova que o conceito de crime muda conforme mudam os interesses, as circunstâncias. Ninguém é responsável por existir, por ser constituído desta ou daquela maneira, por estar nessas circunstâncias e nesse ambiente. Somos necessários. Pertencemos ao todo. Estamos no todo. O “marginal”, o “culpado” é tão responsável como um pedaço de granito é responsável pelo fato de ser granito. A total irresponsabilidade do ser por existir, pelo seu pensar e agir é a gota mais amarga que os novos capitães do mato, os senhores jurisconsultos, os guardiães da moralidade terão que engolir. Isto pode provocar dores profundas, mas depois há um consolo: elas são as dores de um parto.

Então o ser humano é uma consequência necessária de tudo aquilo que seus antepassados foram e de tudo que ele foi, viveu, testemunhou e experimentou. Por isso é quase um absurdo dizer para o ser humano se modificar. Porque isto implica em dizer que tudo se modifique, mesmo o que passou. A isso chamam “caráter”, “índole”, “genética”. Isto não quer dizer que as pessoas não mudam. O fato é que a realidade é sempre a mesma e as circunstâncias que o ser humano irá se defrontar serão idênticas àquelas que já viveu. Ainda assim é possível que o ser humano “se modifique”. Para que isto aconteça é necessário que exista uma variedade de circunstâncias diferentes. Se em cada momento não tivéssemos a nossa frente uma só possibilidade, não seria vida, mas necessidade.

Como a saga de Jean Valjean – protagonista do clássico ‘Os Miseráveis’ – condenado às galés por furtar um pão para saciar a fome de seus familiares, e que, ao fugir deste ambiente, recebe a acolhida de um bondoso bispo, mas incorporando a punição como feitio de seu caráter, furta na calada da noite, prataria daquele que o acolheu. Novamente preso e levado ao bispo, este, num ato comovente, o exime do crime e, entrega-lhe mais prataria repreendendo-o por ter saído tão apressado. Daí então, sentindo a alma tocada por tamanha benevolência, Jean Valjean aparentemente ‘muda de caráter’, pois passa a acreditar nestes laços que, em última análise, encerram a essência da vida.

Lembro-me também, da conduta de um antigo Desembargador, conhecido por seu rigor nas penas que aplicava, até que sofreu um acidente de trânsito e foi socorrido por um réu que tinha condenado, e que a partir de então, modifica sua antiga posição, passando a enxergar o “outro” em sua humanidade e direitos.

Por isso que nos kibutzim, em Israel, - onde o nível de violência é baixíssimo, - as cortes criminais muitas vezes enviam infratores violentos para que lá aprendam a viver de modo pacífico.

Por conta desta vida ser como é, os grandes pensadores rareiam. As pessoas se domesticaram, tornaram-se passivas e dóceis diante da fome, da desigualdade, da injustiça, ao ponto de que, quem ousa contestar o “estado natural das coisas” é tachado de radical, extremista, louco. Mas é de se lembrar que toda espécie de marcha, de movimento, de mudança necessitou de inumeráveis mártires que morreram (Jesus Cristo, Tiradentes, Gandhi, Martin Luther King e tantos outros) porque se deram conta da trama que estavam envolvidos e ousaram pôr o lodo em movimento. Estas pessoas avistaram “a verdade”, e quando isto ocorre, está-se disposto a morrer por ela.

Atualmente a estrutura social está assim montada: a polícia está ali para proteger o poder, manter a desigualdade e impedir a revolta das pessoas; a escola serve para adestrar o indivíduo a fim de futuramente ser explorado; o trabalho o torna imbecil, escravo, faz com que ele saiba muito bem do detalhe, mas ignore todo o resto, faz com que as pessoas tenham o poder de compra e “girem a economia”; os privilégios de alguns os cegam ainda mais; a mídia cumpre o papel que sabe: manipular; a prisão resguarda aqueles seres “indesejáveis”, ali - e onde mais a vista não alcance - se acumula aquilo que se tem medo, asco, ódio; a família – quando há – repercute um discurso pré-fabricado pelo próprio sistema; toda a sociedade com sua teia de relações reproduz as mentiras e se torna refém dela mesma: cria seus “princípios”, e fabrica seus “inimigos”. Se automutila, se bestifica, se rebaixa.

Mas toda esta estrutura social só se mantêm por causa da crença das pessoas. Uma crença de que as coisas devem ser assim e que são assim porque não podem ser diferentes. Praticamente tudo o que existe (dinheiro, poder, direitos, privilégios, democracia, etc) só se mantém por conta desta “crença”, que na verdade não passa de uma tremenda fraude: crê-se numa ilusão.

Por exemplo o dinheiro: ele só é respeitado, querido, santificado porque existe a crença de que ele vale por si só, ou seja, sem lastro algum. Mas no passado o dinheiro sempre existiu tendo lastro, ou seja, o valor equivalente em metal (ouro, prata). Em 1716 a França estava toda endividada e aceitou que John Law instalasse um banco no país onde assumiria as dívidas da Coroa. Law começou a imprimir dinheiro sem lastro algum e no começo as notas que ele imprimia tinham a confiança da população, pois com elas podiam pagar os impostos. Mas algum tempo depois as pessoas começaram a desconfiar que as notas talvez não tivessem a correspondência em metal (em 1720 a quantidade de dinheiro na forma de notas dava quatro vezes o que a França tinha em ouro e prata). Assim, correram para sacar o metal que as notas dariam direito. Quando constataram que não tinha metal nenhum, o pânico se instalou, o banco faliu, Jonh Law teve que fugir do país e por décadas só circulou metal na França.

Esse exemplo mostra que as pessoas é que sustentam toda a estrutura social, tal qual é por meio de uma crença, por meio de algo incutido em suas mentes. Mas o único poder que há é o das pessoas. Elas têm o poder de fazer as coisas e de fazer esta vida uma aventura única, maravilhosa. Isto será possível quando esta crença se dissipar. Aí então será possível a todos enxergar a nova vida. Mas a crença de tudo. Por exemplo: a escritura pública de uma casa só vale porque há uma crença de que este papel dá direito ao imóvel. O diploma de Direito e a Carteira da Ordem dos Advogados valem porque há uma crença das pessoas de que esses títulos conferem ao titular o direito a exercer a advocacia, assim como é com a medicina. Assim é com o documento do veículo, carteira de habilitação, passaporte. Assim é com o poder: ele não se sustenta tanto pela força, mas pela crença de que ele existe. Assim é com toda aquela balela sobre os três poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário).

Nossa sociedade é de papel. E quem alertar “mas isto está na lei”, lembre-se que a lei também é papel. Aliás, “o Estado de Direito” é o alicerce que fundamenta nossa sociedade capitalista desigual, desumana, cruel. É uma ideologia (ilusão mítica) criada para impedir a revolta das pessoas, pois faz com que o legal apareça para os homens como legítimo, isto é, como justo e bom. Mas em realidade o que ocorre é que os interesses de uma classe são colocados na forma de leis, e depois propagam que essas leis são legítimas, boas, justas e válidas para todos. Em realidade as leis não passam de “remendos” para problemas de muito maior vulto. Então a lei e o próprio Direito também são uma fraude, uma enganação. A pior delas. E é preciso eliminar esta crença das pessoas de que as leis vão resolver todos os problemas.

A vida, - assim como a história e toda a civilização - é formada por circunstâncias. Civilização não é outra coisa senão vontade de convivência. Tendência à dissociação é barbárie. Se a convivência parece impossível é porque algo vai mal, muito mal. Foi sempre assim: querendo buscar a verdade é que o homem se enganou, e acabou por enganar a todos. Por conta disso instituiu-se o pecado, criaram-se ideologias e instituições (propriedade privada, escola, prisão, família, etc), rabiscou-se o que seria crime e desenhou-se o bem e o mal. Isto porque o ser humano é um ser pensante. Essa mente, este "acaso" que fez a guerra, separou pessoas e falou mentiras, talvez tenha sido a circunstância necessária para que o ser humano possa dentro em breve experimentar viver uma vida autêntica, onde as necessidades humanas elementares serão atendidas, onde o trabalho será sinônimo de prazer, de paixão, onde o saber estará disponível a todos - e não sendo boicotado, - onde os problemas serão resolvidos com base no conhecimento acumulado pelo homem ao longo deste espaço ridiculamente diminuto na existência da humanidade e que é chamado "história universal", e não com base na ilusão das leis, onde qualquer ser humano poderá viajar para qualquer canto do mundo a fim de estabelecer contato com novos povos, momento em que a cultura florescerá como nunca e as relações humanas serão muito mais sólidas e sinceras, onde as pessoas serão vistas, percebidas, sentidas, tocadas pelo que de fato são e não por títulos, poder, riqueza, status social ou influência. Em resumo, eu só queria dizer que esta "vida" é uma fraude.


[1] Posteriormente veio à tona a tal obsolescência programada que consiste em produzir um produto e programá-lo para que futuramente estrague ou se torne obsoleto, fazendo com que as pessoas comprem novos bens e “girem a economia”. Tudo isto, claro, à custa de recursos naturais e material humano.

[2] A crueldade é uma das mais antigas alegrias da humanidade, onde os próprios Deuses se reconfortavam e se divertiam quando lhes era oferecido o espetáculo.

[3]http://noticias.uol.com.br/ciencia/ultimas-noticias/bbc/2013/12/02/trauma-pode-ser-transmitida-entre...

[4] A esse respeito ver sobre a fome holandesa de 1944.

[5] É o reaparecimento de uma certa característica no organismo depois de várias gerações de ausência. Decorre da não expressão de um gene em uma ou mais gerações de indivíduos. O termo é usado correntemente para referir-se a semelhanças físicas e/ou psicológicas entre seres e seus ancestrais mais distantes. Culturalmente, usa-se o termo para fazer referência à recuperação de atitudes ou tradições ancestrais que teriam permanecido encobertas durante longo período.

[6]http://noticias.terra.com.br/ciencia/neurocientista-estudaoproprio-cerebroedescobre-queeum-psi....

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